Requiem For a Dream

            

 

            Antes de assistir a esse filme, vi outro chamado Irreversível. Ocorreu-me,: há filmes que não se deve ver mais do que uma vez.  A miséria humana, a destruição de tudo a partir de um fato (ou uma seqüência que culmine também em destruição), mostrados de maneira tão realista, são interessantes como experiência cinematográfica. Contudo, é justamente a intensidade do choque, da angústia do espectador, o que almejam criadores da fita.

            Irreversível é um filme que não está incluso em nossa lista, mas abordá-lo será útil (pra mim) neste comentário sobre Réquiem Para Um Sonho. Irreversível mostra, ‘de trás pra frente’, a seqüência de fatos que determinam uma tragédia horrível para três pessoas. A filmagem é nauseante. A câmera gira, sobe, desce, livre. Há uma relação direta entre a velocidade da agitação da câmera e o que se passa na trama. Numa cena, um homem tomado pela ira procura um outro que pretende matar. Invade um ‘inferninho gay’ e roda muito pra achar sua vítima. Durante essa busca, a câmera enlouquece, move-se em relação direta, não com a velocidade do ator, mas com sua raiva, frustração, obsessão. E há a cena do estupro no túnel. Monica Belluci não poderia ser melhor. Nessa parte a câmera permanece imóvel, mostrando tudo de um ângulo só e num único take. E há várias outras coisas que não precisamos (não preciso) ver novamente, o filme é muito forte, desperta emoções intensas.

            Réquiem Para Um Sonho possui diferenças notáveis. É filmado em cronologia linear. O que há de relevante no início é a apresentação dos quatro personagens principais e os laços que os unem. Harry Goldfarb, sua namorada Marion e seu amigo Tyrone usam heroína regularmente (não aparece a palavra heroína no filme, mas é fácil identificar). Cheiram, fumam, não passam sequer um dia sem algum tipo de droga ilícita. Mas drogas ilegais são caras e difíceis de comprar. Resolvem tentar comercializar. Aqui você pensa: “vai dar merda”. E tem razão, mas é mais merda do que você imaginou.

            Ao mesmo tempo, a mãe de Harry, Sarah Goldfarb, obcecada por um show de auto-ajuda na TV, decide emagrecer para poder usar seu lindo vestido vermelho e participar do show. Procura um médico picareta que prescreve o que, nos Estados Unidos, é conhecido como ‘red ones and blue ones’. Anfetaminas costumam ter comprimido em tons de vermelho e calmantes ou barbitúricos  comprimidos azulados. Entediada, como a maioria dos idosos norte-americanos, percebe os efeitos estimulantes das medicações e inicia o abuso. Logo está resistente e dependente. E desce até o nível mais baixo que tal erro poderia tê-la conduzido.

            Na minha opinião, o que há de melhor no filme é o pragmatismo em relação ao sofrimento. Não há excesso de dramatização, afetamentos. Não há nenhum personagem nobre, virtuoso. A direção procura criar situações fictícias fiéis à realidade. Nada de redenção no final. Atingem seus limites de degradação, humilhação, miséria. Digamos que quem terminou ‘menos pior’ foi o Tyrone. Todos, porém, sofrem perdas imensas e irreparáveis. Vou parar porque está virando ‘spoiler’.

            Comentários técnicos (ou tentativa): Montagem e edição interessantes, roteiro sem buracos óbvios, composição marcante de algumas cenas (como as de Sarah Goldfarb, em suas viagem de grandiloqüência e alucinações paranóides com sua geladeira). O som é muito criativo e detalhista. A trilha possui uma relação íntima com o enredo. Atores competentes. Jared Leto não deixou passar a oportunidade de mostrar que não é só bonito; Jennifer Connelly, belíssima como sempre, (odiei vê-la tão humilhada no filme) realiza mais uma boa atuação; Ellen Burstyn, é maravilhosa! Ela conseguiu transformar uma senhorinha medíocre numa dependente sem ter, em nenhum momento, a noção clara do que estava acontecendo! Disputou o Oscar e o Globo de Ouro de melhor atriz, pela atuação nesse filme, em 2001; Marlon Wayans, figura fácil de comédias medíocres, consegue aqui não dar vexame (apesar de seu personagem ser menos explorado).

            Fechando: quem gosta de cinema tem que assistir. Mas é amargo, facilmente você poderá flagar-se aflito, revoltado, pernas encolhidas... Absolutamente contra-indicado para quem gosta de filmes com fechamento dos ciclos no final ou ‘e viveram felizes para sempre’. Meu conselho pessoal: assistam, mas não estraguem a experiência vendo mais de uma vez.

 

 Paulo André Araújo Dias – acadêmico do 4º ano da FM-UF;

 Membro do cineclube da Faculdade de Medicina;

  Autor de ridículas tentativas de críticas de  filmes.

 

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